terça-feira, 4 de dezembro de 2012

mágua (mágoa)

ah, esse pedaço de memória que tenho de você… foi só o que sobrou daqueles tantos objetos abstratos perdidos e fundidos aos nossos efeitos e defeitos. tudo virou cheiro, saudade, memória, coisas sem toque. àquela espera da hora certa a apontar no relógio, alternada entre minutos e segundos fracionados. eu olhava o tempo e ele passava até virar um dia inteiro, uma semana, até se esvair em lágrimas e água de chuva. o fim é sempre igual, tudo plásmico, instável e volátil. não queria me recuperar, sinto que isso é o mesmo que esquecer. deixar escorrer é também perceber que os líquidos secam.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

(des)construção

a pedra que lá no princípio fazia fogo, hoje acalora as maiores discussões do mundo. apedreja-se os culpados, mesmo que agora apenas moralmente. é o divisor da poesia moderna para a contemporânea por drummond. no caminho, no sapato, no incômodo, na cor árida. a pedra que é até substantivo próprio, mas não se faz feminina para ser mulher. tão mineral e natural de nada vale, chuta-se pra frente esse entrave, que constrói o mundo, mas é o primeiro fragmento da destruição.

domingo, 23 de setembro de 2012

fragmento sobre o nada

se o mundo some dos seus pés, é a resposta que ele lhe dá por fugir dele. é mais fácil atribuir, atrelar a responsabilidade aos alheios quando pouco se faz por si próprio. seu alimento acaba sendo a solidão somada a biscoitos secos e a falta de vida. muito prosac, pouco brilho com a dimensão de um espaço vazio. sobra a vontade do não mudar, da certeza plena, do ego cheio de si e das palavras varicosas que só te faz consumir-se, consumar-se e sucumbir-se a atos de pieguices cheios de nada, de sabor insípido e volátil, como o tempo do universo de coisas vãs; este é o tamanho do seu mundo breve.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

lights

te procurei por essas vias e você não estava nesse caminho, nessa janela. hoje a solidão cresceu dentro de mim do tamanho da não explicação; é um espaço vazio que não quero medir. vazio sem dorso, posto ou lugar para repousar. vou procurar um pouco de vida em outros sorrisos, na borda do copo, atrás da luz, como uma (mari)posa.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

embocadura

foi feito pra mim o desenho mais delicado e mais belo: os contornos da sua boca. doce e sutil forma de dizer-dizendo, falando, sorrindo. um pedaço de você que não quero deixar seguir. muitas vidas num sorriso, muitas vozes quando se trancava no mal-humor. articulação mais bonita é dizer muitas coisas sem falar.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

um diálogo paterno...

- Pois bem menina, esse mundo não vai te salvar, as situações também não vão; é simples: se bater, apanha. Se se fugir do problema ele vai atrás de você. Se comer muito doce vai engordar… - E se eu correr para a roda gigante? - Aí você vai se divertir…

terça-feira, 24 de julho de 2012

amadeus

tenho tudo quando o nada, o pouco, o breve e o menos não existem. grafo nesta breve solidez caminhos decisivos: pés firmes, passos um a um. a quase certeza do equilíbrio de não cair em corda bamba. alguns segundos sem hesitar, muito ar para respirar. cravo no chão abaixo a estrada acima, a linha do não limite. forma volátil, densa, tensa; um precipício a se jogar.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

dos dias frescos de manhã ensolarada, prefiro deixar fragmentos em um canto da memória. a saudade guardo no bolso, o fios no topo da cabeça em alta tensão, o nós na garganta e os passos na estrada.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

espero que você esteja fazendo arte por aí. pulando muros, correndo pelo corredor, saltando pelas janelas, que esteja mais levado que criança, para eu de dar uma enorme bronca, te pegar no colo e te fazer feliz.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

açúcar

quando saiu pra enlouquecer não lembrou que tinha de produzir passos, esqueceu que precisava se locomover sem se amparar. o estado era àquele: dois a rodar. passos no vazio, cabeça a girar. memória pouca, risada solta. agora volta a caminhar numa linha reta meio cubista. lembra da geléia verde absorvida no café da manhã (…) náusea. volta aos passos de bebê esquecidos na infância, mas que ainda cabem dentro do adulto tropego. o gosto amargo na boca sabor estomago denuncia a hora de deixar para trás parte daquela alegria líquida e psicodélica que não quer caber dentro de si; e ela sobe garganta acima num jato, na explosão de um gozo: é verde. no corpo o renascimento, no copo a última dose. na cabeça o coração pulsante a bombear todos os membros que oscilavam entre minguar e dilatar. mal sabia que aquelas bombeadas tinham cheiro, barulho e a sensação da falta de doce. neste instante queria apenas o açúcar para (re)lembrar do sabor que a vida tinha.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

old paper


estou ficando velha e amarela como os papéis do meu passado. numa contagem regressiva até a década do meu nascimento tudo é amarelo, velho e puído por traças. minha certidão de nascimento é assim, as imagens dos takes dos jogos de futebol do meu tempo, as fotos de bebê e até as roupas da infância que me restaram. o elo entre aquele amor e a vitalidade soberana até os 25 agora faz contagem reversa,conspira contra, é volátil. sou mais velha que a minha tia que nasceu em 1957, já que morreu aos 18. sou mais velha que a minha mãe quando me concebeu. sou mais velha que o meu pai quando casou. sou mais velha que alguns amigos que nasceram antes de mim e que já não existem mais. sou mais velha que hendrix, joplin e morrison. não acredito em contos, já não aumento pontos. a idade traz coisas que não se pode esconder. a velhice fundamenta, grifa em vermelho, mostra as marcas na cara e é maior que a juventude. é soberana e irreversível.

terça-feira, 17 de abril de 2012

remember

minha boca sorri porque há articulação suficiente para isso. por conta de meus braços serem ligados a membros superiores e terem terminações táteis eles não são pernas. só choro quando glândulas lacrimejantes permitem a saída da emoção que não quer se calar. se eu falasse pelos poros falaria muito mais que falo hoje. se mastigasse com o cérebro não comeria, estaria apenas pensando. se amasse com os olhos apenas exergaria. se tivesse outra cara, seria outra pessoa. se nascesse em outros campos, talvez não estivesse aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

comedeiras

meus membros antropofágicos só querem comer. quero comer com as mãos, com os pés, com o cérebro, com os olhos. venha, me dê de comer. quero me orgulhar do que as minhas entranhas recebem, quero transpor o que o meu sexo não dá conta. quero passar do ponto, ir além do limite. quero ter a extravagância do extrapolar. quero o não caber, o não ter tamanho, a boca cheia, a cara suja, a mão grande. quero os contornos, os volumes, as formas não formais. o que não basta. o copo até a boca , a mesa cheia, a cama farta e todas as comilanças do poder de comer. entradas lotadas até explodir na loucura da falta de fome e da sobra da gula.

quinta-feira, 22 de março de 2012

provas

não tenho mais parado pra pensar na saudade. ela é que de vez em quando salta na minha frente. uma foto que eu não tinha visto antes vem me contar uma novidade sobre o que já vivi. o braço encostado ao meu, as veias pulsando vida, um corpo quente e perto que me conta sobre o amor. lembro então o que era ser completa. reconheço uma cumplicidade que eu já não lembrava existir. da alegria daquele dia, com a perspectiva tão fresca da vida viva, da euforia de todos à nossa volta, faço um álbum bem bonito, e guardo num canto escondido, mas tão escondido, que corro o risco de procurar e não achar. e quando acho, dói. mas dói bonito. junto com a dor vem uma sensação de alívio de poder ter o poder de sentir.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

uns

pela tela fria, sobra o seu calor pelas vias que podemos ter. se falta o toque, existe a energia. se falta o paladar, sobra dedos para escrever. se a conversa não é literal, fazemos por acontecer. entregues para se doar, se querer, se sentir, se gostar, se fazer. no nosso mundo de sonhos inimagináveis as barreiras são transponíveis. o céu não conhece o limite. a distância não existe mais. a língua incide, é membro, é corpo, é fala (...) é a prova. as paralelas fazem curvas e se encontram. o nosso preto e branco faz yin-yang: são perfeitos, permissíveis. mastigamos o tempo somando números que não existem. vivemos em contagem regressiva para a linha de chegada com cara de ponto de partida.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

décimo primeiro


em um lance os dados correram juntos até perderem-se. em par, somavam 11, ninguém jamais entenderia ou veria aquela soma; o som dos dois juntos era justificável e bem mais interessante do que a adição de valores menores. a dúvida libertina do jogador ficava num espaço comodo: entre a escolha certa e o menos provável, o que no fundo tinha o gosto da não escolha. quando um mais um faz um par, onze é menos que nada.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

ode

do abraço afável ao toque da ponta dos dedos, do sorriso em leque, na expansão de sentimento em conselhos. a cautela, a proteção não protestante. as expressões amigas em gestos de delicadeza.o silêncio que não quer silenciar, a fala que não se cansa de falar. o acolhimento dos dias bons e ruins. a gargalhada escandalosa que abre caminhos. a atenção precisa de quem quer cuidar.

pai

mãe,

família

amor,

aos meus amigos de todos os dias:

obrigada.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

um texto pra nós


das práticas mais antigas da vivência humana está o amor. e este, por sua vez, nunca morre. dá volta e meia, volver. se vira, se recicla, se propõe, se entrega, se revela, mas não se vai. de pai, de mãe, de irmão, de amigo, divinal... o amor... dá volta e meia volver. e volta e meia eu vou vê-lo, nos olhos do passado que se faz presente, nas palavras de quem realmente quer voltar. o amor tem um só tamanho, e é exatamente o tamanho que quero pra mim.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

dani(elle)-se..."dani hélice"


uma menina cheia de cor cruzou o meu caminho. menina cor, menina luz, menina bala. os olhos pensam, o corpo fala. se chamasse cor seria todas. se fosse um doce seria jububa. menina alegria! nas unhas, nas caras, nas indumentárias. rei midas da cor. coloca pigmento nessa massa: de bolo, de gente, de modelar. coloca tudo nessa bolsa, o detector não vai te pegar. transforma tudo em arco-íris, dá um pedaço dessa luz? vai à lapa, ao lavradio, vai ao mundo, ao infinito que esse espaço não tem tamanho, mas ele é todo seu.

quarta-feira, 27 de abril de 2011


se as palavras não faltassem e a língua permitisse, entregaria de bandeja esse jogo que é o seu. ser serpente, ser maldita, maldizer o que se diz, é deixar entre lacuna esse fio, esse lance por um triz. é escondendo que se mostra, que se revela as entrelinhas, conheço cada uma das suas, teus progressos, o que te intima. conhece pouco de mim, sei muito de você, passeio nos teus caminhos, pouco sabe onde andei. da sua base descobri o que é o teu medo da perda, a donzela do seu castelo é jovem plebéia, sou suprema...realeza.