terça-feira, 29 de janeiro de 2013
além do azul
o menino sobe em cima da cadeira, quer ficar mais perto do teto.
- não sobe aí menino, diz a mãe.
e o menino vê o céu pela janela, azul clarinho. olha de novo pro seu céu de concreto dentro de casa e quer alcançar, sobe novamente na cadeira.
- menino desce daí, vou te bater…
e ele continua a achar aquele céu possível, mas fácil que o azul, ainda que meio cinza. sobe novamente, mas apanha, na mão, a mesma que tenta o alcance e no rosto, o mesmo que foi iluminado pelo céu lá fora. esboça tristeza, faz beicinho, quer chorar.
- não chora...
engole a seco o nó na garganta e a lágrima contida… a pele arde. agora ele só quer o chão.
domingo, 27 de janeiro de 2013
menino do ninho
e o meu pensamento estava contido em seus pedacinhos inteiros. não dava pra guardar fora de mim àquele sorriso, aqueles cabelos e seus braços finos e firmes. corrompido de música e apreciações, se fazia evoluído, permissível, permeável. sua não presença estava presente em todos os lugares feito eco em sala vazia: não saía, não sai. pouco conheço, mas sei muito de si. e eu poderia passar dias e mais dias acordando do mesmo jeito, aprendendo mais do mesmo sem me cansar.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
da janela lateral
e eu que era detentora das palavras escritas a mão, de repente descobri a tecnologia, o monitor, as teclas... um computador e as palavras também escritas nele. e aquele mocinho dos olhos encantadores que eu via da janela da vida, da janela de casa e a da minha alma, agora está lá, na janela do meu computador, na janela dos sites de relacionamento, na janela das siglas sononoras, mas visuais.
de dentro do meu coração eu o levei pra esse mundo dos computadores. do lado de lá, na janela da minha tela, tenho um cantinho virtual reservado só pra ele: uma pasta com alguns megabites marcada com o seu nome no meu desktop. do lado daqui, armazenado ele está, no meu coração sem tamanho, forma ou extensão.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Valdemar
ele tinha a malemolência das ondas no seu corpo magro e no seu nome. preto moçambicano alto, forte, cantarolava uns pontos que eu gostava de ouvir. olhava os seres de baixo pra cima, avaliando o tamanho da grandeza de cada um. era um xamã, um sábio, respeitava para se ter respeito. quando o mundo estava ao avesso ele soltava um palavrão, era a urgência do peito que não queria calar. sabia de cada mundo, da grandeza das crianças à miudeza dos adultos, fazia dos ouvidos e dos olhos os seus sentidos mais aflorados; para ele, ouvir era saber. nasceu num dia igual a esse: 12/12/12, lá pelos idos de mil novecentos e poucos, mas muito se tinha naquele tempo em que as pessoas eram mais carne, alma e osso, às vezes duro de roer. pouca fala, muita prosa, somado aos barbantes amarrados nos tornozelos e aos muitos anéis nos dedos. esse era o meu avô, Valdemar.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
el monstruo de dos cabezas
só por hoje queria ter nascido da minha própria criação. assim teria quatro olhos, quatro braços, quatro pernas, duas cabeças e dois corações. queria me reinventar para ser outra coisa, outro ser. queria ser uma criatura juntada, híbrida, unificada dentro dessa dualidade de fenótipo mutante. só por hoje queria ser dois, simplificada em apenas um. enxergaria mais, abraçaria melhor, caminharia veloz, pensaria além, e o amor, esse nunca haveria de caber dentro de mim.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
mágua (mágoa)
ah, esse pedaço de memória que tenho de você… foi só o que sobrou daqueles tantos objetos abstratos perdidos e fundidos aos nossos efeitos e defeitos. tudo virou cheiro, saudade, memória, coisas sem toque. àquela espera da hora certa a apontar no relógio, alternada entre minutos e segundos fracionados. eu olhava o tempo e ele passava até virar um dia inteiro, uma semana, até se esvair em lágrimas e água de chuva. o fim é sempre igual, tudo plásmico, instável e volátil. não queria me recuperar, sinto que isso é o mesmo que esquecer. deixar escorrer é também perceber que os líquidos secam.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
(des)construção
a pedra que lá no princípio fazia fogo, hoje acalora as maiores discussões do mundo.
apedreja-se os culpados, mesmo que agora apenas moralmente. é o divisor da poesia moderna para a contemporânea por drummond. no caminho, no sapato, no incômodo, na cor árida. a pedra que é até substantivo próprio, mas não se faz feminina para ser mulher. tão mineral e natural de nada vale, chuta-se pra frente esse entrave, que constrói o mundo, mas é o primeiro fragmento da destruição.
domingo, 23 de setembro de 2012
fragmento sobre o nada
se o mundo some dos seus pés, é a resposta que ele lhe dá por fugir dele. é mais fácil atribuir, atrelar a responsabilidade aos alheios quando pouco se faz por si próprio. seu alimento acaba sendo a solidão somada a biscoitos secos e a falta de vida. muito prosac, pouco brilho com a dimensão de um espaço vazio. sobra a vontade do não mudar, da certeza plena, do ego cheio de si e das palavras varicosas que só te faz consumir-se, consumar-se e sucumbir-se a atos de pieguices cheios de nada, de sabor insípido e volátil, como o tempo do universo de coisas vãs; este é o tamanho do seu mundo breve.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
lights
te procurei por essas vias e você não estava nesse caminho, nessa janela. hoje a solidão cresceu dentro de mim do tamanho da não explicação; é um espaço vazio que não quero medir. vazio sem dorso, posto ou lugar para repousar. vou procurar um pouco de vida em outros sorrisos, na borda do copo, atrás da luz, como uma (mari)posa.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
embocadura
foi feito pra mim o desenho mais delicado e mais belo: os contornos da sua boca. doce e sutil forma de dizer-dizendo, falando, sorrindo. um pedaço de você que não quero deixar seguir. muitas vidas num sorriso, muitas vozes quando se trancava no mal-humor. articulação mais bonita é dizer muitas coisas sem falar.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
um diálogo paterno...
- Pois bem menina, esse mundo não vai te salvar, as situações também não vão; é simples: se bater, apanha. Se se fugir do problema ele vai atrás de você. Se comer muito doce vai engordar…
- E se eu correr para a roda gigante?
- Aí você vai se divertir…
terça-feira, 24 de julho de 2012
amadeus
tenho tudo quando o nada, o pouco, o breve e o menos não existem. grafo nesta breve solidez caminhos decisivos: pés firmes, passos um a um. a quase certeza do equilíbrio de não cair em corda bamba. alguns segundos sem hesitar, muito ar para respirar. cravo no chão abaixo a estrada acima, a linha do não limite. forma volátil, densa, tensa; um precipício a se jogar.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
açúcar
quando saiu pra enlouquecer não lembrou que tinha de produzir passos, esqueceu que precisava se locomover sem se amparar. o estado era àquele: dois a rodar. passos no vazio, cabeça a girar. memória pouca, risada solta. agora volta a caminhar numa linha reta meio cubista. lembra da geléia verde absorvida no café da manhã (…) náusea. volta aos passos de bebê esquecidos na infância, mas que ainda cabem dentro do adulto tropego. o gosto amargo na boca sabor estomago denuncia a hora de deixar para trás parte daquela alegria líquida e psicodélica que não quer caber dentro de si; e ela sobe garganta acima num jato, na explosão de um gozo: é verde. no corpo o renascimento, no copo a última dose. na cabeça o coração pulsante a bombear todos os membros que oscilavam entre minguar e dilatar. mal sabia que aquelas bombeadas tinham cheiro, barulho e a sensação da falta de doce. neste instante queria apenas o açúcar para (re)lembrar do sabor que a vida tinha.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
old paper

estou ficando velha e amarela como os papéis do meu passado. numa contagem regressiva até a década do meu nascimento tudo é amarelo, velho e puído por traças. minha certidão de nascimento é assim, as imagens dos takes dos jogos de futebol do meu tempo, as fotos de bebê e até as roupas da infância que me restaram. o elo entre aquele amor e a vitalidade soberana até os 25 agora faz contagem reversa,conspira contra, é volátil. sou mais velha que a minha tia que nasceu em 1957, já que morreu aos 18. sou mais velha que a minha mãe quando me concebeu. sou mais velha que o meu pai quando casou. sou mais velha que alguns amigos que nasceram antes de mim e que já não existem mais. sou mais velha que hendrix, joplin e morrison. não acredito em contos, já não aumento pontos. a idade traz coisas que não se pode esconder. a velhice fundamenta, grifa em vermelho, mostra as marcas na cara e é maior que a juventude. é soberana e irreversível.
terça-feira, 17 de abril de 2012
remember
minha boca sorri porque há articulação suficiente para isso. por conta de meus braços serem ligados a membros superiores e terem terminações táteis eles não são pernas. só choro quando glândulas lacrimejantes permitem a saída da emoção que não quer se calar. se eu falasse pelos poros falaria muito mais que falo hoje. se mastigasse com o cérebro não comeria, estaria apenas pensando. se amasse com os olhos apenas exergaria. se tivesse outra cara, seria outra pessoa. se nascesse em outros campos, talvez não estivesse aqui.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
comedeiras
meus membros antropofágicos só querem comer. quero comer com as mãos, com os pés, com o cérebro, com os olhos. venha, me dê de comer. quero me orgulhar do que as minhas entranhas recebem, quero transpor o que o meu sexo não dá conta. quero passar do ponto, ir além do limite. quero ter a extravagância do extrapolar. quero o não caber, o não ter tamanho, a boca cheia, a cara suja, a mão grande. quero os contornos, os volumes, as formas não formais. o que não basta. o copo até a boca , a mesa cheia, a cama farta e todas as comilanças do poder de comer. entradas lotadas até explodir na loucura da falta de fome e da sobra da gula.
quinta-feira, 22 de março de 2012
provas
não tenho mais parado pra pensar na saudade. ela é que de vez em quando salta na minha frente. uma foto que eu não tinha visto antes vem me contar uma novidade sobre o que já vivi. o braço encostado ao meu, as veias pulsando vida, um corpo quente e perto que me conta sobre o amor. lembro então o que era ser completa. reconheço uma cumplicidade que eu já não lembrava existir. da alegria daquele dia, com a perspectiva tão fresca da vida viva, da euforia de todos à nossa volta, faço um álbum bem bonito, e guardo num canto escondido, mas tão escondido, que corro o risco de procurar e não achar. e quando acho, dói. mas dói bonito. junto com a dor vem uma sensação de alívio de poder ter o poder de sentir.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
uns
pela tela fria, sobra o seu calor pelas vias que podemos ter. se falta o toque, existe a energia. se falta o paladar, sobra dedos para escrever. se a conversa não é literal, fazemos por acontecer. entregues para se doar, se querer, se sentir, se gostar, se fazer. no nosso mundo de sonhos inimagináveis as barreiras são transponíveis. o céu não conhece o limite. a distância não existe mais. a língua incide, é membro, é corpo, é fala (...) é a prova. as paralelas fazem curvas e se encontram. o nosso preto e branco faz yin-yang: são perfeitos, permissíveis. mastigamos o tempo somando números que não existem. vivemos em contagem regressiva para a linha de chegada com cara de ponto de partida.
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