quinta-feira, 29 de maio de 2014
estava quebrando a cabeça mais uma vez. teimava em ser x, mas era y. não queria ser menos do que podia ser. mas... ser para que? o lugar que não lhe cabia, ou lhe coubera estava traçado e de tanto que lhe impuseram, se reservou ao pequeno quadrado apenas, e nunca mais foi útil a alguém. nem a si mesma.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
capítulo 1, versículo 0
perdeu a mão dos ouvidos e em seguida não tinha mais dedos para fazer escolhas
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
2:1
para ter um lugar cativo no topo da lista é preciso pequenos mimos, é preciso marcar e esquentar o lugar. ter o gosto pela sensibilidade de quem não deixa faltar o trato, o toque, a despedida...o abraço. é preciso proporcionar trocas, entregas, novidades. é preciso se fazer presente ainda que se falte, é preciso não permitir lacunas no instante dos contratempos. o trânsito precisa ser em via dupla. é preciso se despir das vaidades para se vestir de afeto. é preciso dividir-se para aprender a somar.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
sem valor
nem toda dedicação do mundo mereceria perdão diante do erro. o erro não vale nunca, não vale nada. não se pode errar, faltar, quebrar, sobrar, trincar. e eu não valho. não valho porque sou humano, porque um corte me fere, porque os meus olhos choram, porque tenho secreção quando gripo, porque não respiro bem. não valho se falto ao trabalho, se digo verdades, valerei menos ainda quando mentir. valho menos pra alguém todo dia. não valho porque os meus meios nunca justificarão os fins. eu não valho o quanto peso porque as minhas respostas não inspiram confiança...não são documentos timbrados. não valho porque não posso fingir o gozo, porque o meu doce melou. não valho por ter o ferro que fere nas feridas, por perdoar em sinônimo de fraqueza, por ser posto em doação sem valor de moeda. o poder de valia alheia quase sempre terá mais peso. a grama do vizinho ainda poderá ser mais verde, valerá por grama, quilo, tonelada. a minha grama é quase árida, é peso morto, nunca há de valer. não caibo em vida morna, não suporto a agonia, não vivo em oração. sou todo sentimento e palavras que nunca valerão um livro escrito ou uma linha recitada. o meu presente jamais poderá ser ganho por mim:quem não vale, não ganha. ele também jamais poderá ser conjugado.os meus verbos não tem terminações, não são ações ou definições, pouco custam, nada valem. estão todos presos no infinitivo de uma memória sem valor.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
classificados
tenho um arrepio na alma que parece não passar. tenho a pele frágil ao toque, um coração ansioso por amores quentes que aqueçam a pele durante todas as estações. se me pegar leva. se me pescar, posso escorregar. necessito de mãos acolhedoras que me envolvam e que se anunciem sem palavras.gosto dos tons fortes da terra, mas não da sua consistência, prefiro a rigidez do concreto. admiro a permissividade do que deixa gosto, e de quem se dá com gosto. gosto do cheio, do muito, as vezes do excesso, só pra não deixar faltar. gosto dos líquidos, fluídos e de tudo que possa migrar de um ser para o outro. gosto de quem se permite e se deixa ouvir o som de sua respiração. tenho um desejo eloquente pelos ritmos do corpo; batimentos cardíacos, piscadas por minuto, quantidade de suor na pele durante as emoções, crescimento de cabelos, unha, barba. gosto dos sintomas de crescimento. do que se assemelha a todos sem ser igual.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
saiu pra passear e esqueceu as gavetas abertas. não havia nada nelas, não havia motivos pra fechar, não existia zelo pra guardar. na madeira do compartimento só farpas de um passado que levou pertences importantes, mas os valores reais ficaram no coração, somado a mais algum desejo de aquisição, um resquício de desejo que só serviu para comprar novos pertences. escolheu uma feira de preços módicos, numa dessas onde se vende comidas, ervas e objetos. teve cautela, olhou corações no açougue; não queria mais nada dos animais, preferiu um músculo cardíaco de alpaca feito pelo hippie da calçada.
quarta-feira, 20 de março de 2013
toc
as impressões ficaram retidas em um caderno. era lágrima em cima de lágrima, borrando a escrita, salgando a palavra. muitos nós a desatar, alguns na garganta, outros na corda bamba da vida. se juntasse todas as vidas que teve em apenas uma, teria 507 anos;estaria seca nos olhos, puída na pele e petrificado o coração. teria extremidades elétricas a fim de repelir qualquer contato que lhe fizesse humanizada, querendo tocar, mas com mãos escamadas como as de um réptil não conseguia reconhecer seres pelo tato. a boca entreaberta não se movia há tempos,cansara de falar, tornando estática a articulação mandibular. queria gozo, queria vida, a mesma vida dura que lhe conferia seus joelhos em brita, a mesma que lhe dera o oxigênio e lhe arremessara fogo. queria ar ou uma janela, ganhou uma virtual que lhe sufocou pela falta do físico, do palpável, do próximo. ficou a dúvida, foi-se a verdade. recorreu ao caderno... não sabia mais escrever.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
sentido gustativo
minha língua faz prosopopeia, faz viva a morte, a pedra, o meio do caminho. a minha língua é viva, faz sentido, aponta a sensualidade, leva para caminhos inóspitos; leva e trás em movimentos cíclicos e sinuosos, uma língua condutora de emoções. ela se veste de saliva e se despe em outra boca. bate lá no céu de sua morada para se auto-pronunciar. a minha língua é dúbia, faz-se em letra, fonética e músculo. a minha língua fala, (d)escreve e faz amor.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
todo samba tem um refrão
meu coração tem cor por isso decidi não querer festas vazias, alegria volátil, nem doses de culpa no dia seguinte. não quero encher o copo e esvaziar meus valores. a festa da carne não me pendura no açougue, não me consome. quero outras festas que me devorem. quero festas de alegria plena, que decorem o meu templo. essa festa tem que vir de dentro, ser uma festa da alma e coração, um exercício de todos os dias para todos os dias. isso sim é carnaval. porque o que vem de dentro não tem fim.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
além do azul
o menino sobe em cima da cadeira, quer ficar mais perto do teto.
- não sobe aí menino, diz a mãe.
e o menino vê o céu pela janela, azul clarinho. olha de novo pro seu céu de concreto dentro de casa e quer alcançar, sobe novamente na cadeira.
- menino desce daí, vou te bater…
e ele continua a achar aquele céu possível, mas fácil que o azul, ainda que meio cinza. sobe novamente, mas apanha, na mão, a mesma que tenta o alcance e no rosto, o mesmo que foi iluminado pelo céu lá fora. esboça tristeza, faz beicinho, quer chorar.
- não chora...
engole a seco o nó na garganta e a lágrima contida… a pele arde. agora ele só quer o chão.
domingo, 27 de janeiro de 2013
menino do ninho
e o meu pensamento estava contido em seus pedacinhos inteiros. não dava pra guardar fora de mim àquele sorriso, aqueles cabelos e seus braços finos e firmes. corrompido de música e apreciações, se fazia evoluído, permissível, permeável. sua não presença estava presente em todos os lugares feito eco em sala vazia: não saía, não sai. pouco conheço, mas sei muito de si. e eu poderia passar dias e mais dias acordando do mesmo jeito, aprendendo mais do mesmo sem me cansar.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
da janela lateral
e eu que era detentora das palavras escritas a mão, de repente descobri a tecnologia, o monitor, as teclas... um computador e as palavras também escritas nele. e aquele mocinho dos olhos encantadores que eu via da janela da vida, da janela de casa e a da minha alma, agora está lá, na janela do meu computador, na janela dos sites de relacionamento, na janela das siglas sononoras, mas visuais.
de dentro do meu coração eu o levei pra esse mundo dos computadores. do lado de lá, na janela da minha tela, tenho um cantinho virtual reservado só pra ele: uma pasta com alguns megabites marcada com o seu nome no meu desktop. do lado daqui, armazenado ele está, no meu coração sem tamanho, forma ou extensão.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Valdemar
ele tinha a malemolência das ondas no seu corpo magro e no seu nome. preto moçambicano alto, forte, cantarolava uns pontos que eu gostava de ouvir. olhava os seres de baixo pra cima, avaliando o tamanho da grandeza de cada um. era um xamã, um sábio, respeitava para se ter respeito. quando o mundo estava ao avesso ele soltava um palavrão, era a urgência do peito que não queria calar. sabia de cada mundo, da grandeza das crianças à miudeza dos adultos, fazia dos ouvidos e dos olhos os seus sentidos mais aflorados; para ele, ouvir era saber. nasceu num dia igual a esse: 12/12/12, lá pelos idos de mil novecentos e poucos, mas muito se tinha naquele tempo em que as pessoas eram mais carne, alma e osso, às vezes duro de roer. pouca fala, muita prosa, somado aos barbantes amarrados nos tornozelos e aos muitos anéis nos dedos. esse era o meu avô, Valdemar.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
el monstruo de dos cabezas
só por hoje queria ter nascido da minha própria criação. assim teria quatro olhos, quatro braços, quatro pernas, duas cabeças e dois corações. queria me reinventar para ser outra coisa, outro ser. queria ser uma criatura juntada, híbrida, unificada dentro dessa dualidade de fenótipo mutante. só por hoje queria ser dois, simplificada em apenas um. enxergaria mais, abraçaria melhor, caminharia veloz, pensaria além, e o amor, esse nunca haveria de caber dentro de mim.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
mágua (mágoa)
ah, esse pedaço de memória que tenho de você… foi só o que sobrou daqueles tantos objetos abstratos perdidos e fundidos aos nossos efeitos e defeitos. tudo virou cheiro, saudade, memória, coisas sem toque. àquela espera da hora certa a apontar no relógio, alternada entre minutos e segundos fracionados. eu olhava o tempo e ele passava até virar um dia inteiro, uma semana, até se esvair em lágrimas e água de chuva. o fim é sempre igual, tudo plásmico, instável e volátil. não queria me recuperar, sinto que isso é o mesmo que esquecer. deixar escorrer é também perceber que os líquidos secam.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
(des)construção
a pedra que lá no princípio fazia fogo, hoje acalora as maiores discussões do mundo.
apedreja-se os culpados, mesmo que agora apenas moralmente. é o divisor da poesia moderna para a contemporânea por drummond. no caminho, no sapato, no incômodo, na cor árida. a pedra que é até substantivo próprio, mas não se faz feminina para ser mulher. tão mineral e natural de nada vale, chuta-se pra frente esse entrave, que constrói o mundo, mas é o primeiro fragmento da destruição.
domingo, 23 de setembro de 2012
fragmento sobre o nada
se o mundo some dos seus pés, é a resposta que ele lhe dá por fugir dele. é mais fácil atribuir, atrelar a responsabilidade aos alheios quando pouco se faz por si próprio. seu alimento acaba sendo a solidão somada a biscoitos secos e a falta de vida. muito prosac, pouco brilho com a dimensão de um espaço vazio. sobra a vontade do não mudar, da certeza plena, do ego cheio de si e das palavras varicosas que só te faz consumir-se, consumar-se e sucumbir-se a atos de pieguices cheios de nada, de sabor insípido e volátil, como o tempo do universo de coisas vãs; este é o tamanho do seu mundo breve.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
lights
te procurei por essas vias e você não estava nesse caminho, nessa janela. hoje a solidão cresceu dentro de mim do tamanho da não explicação; é um espaço vazio que não quero medir. vazio sem dorso, posto ou lugar para repousar. vou procurar um pouco de vida em outros sorrisos, na borda do copo, atrás da luz, como uma (mari)posa.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
embocadura
foi feito pra mim o desenho mais delicado e mais belo: os contornos da sua boca. doce e sutil forma de dizer-dizendo, falando, sorrindo. um pedaço de você que não quero deixar seguir. muitas vidas num sorriso, muitas vozes quando se trancava no mal-humor. articulação mais bonita é dizer muitas coisas sem falar.
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